4.25.2010

Ruínas

Ruínas, o último filme de Manuel Mozos é, contrariamente ao que o título possa sugerir, um enorme voto de confiança no futuro do cinema. O filme surge esteticamente na linhagem de outros filmes sobre a morte – parece mesmo que a necrofilia é o tema do cinema português – mas ganha aqui contornos mais interessantes, ou pelo menos mais românticos, de uma verdadeira necrofilia melancólica. Mas, além do tratamento visual ser uma viragem significativa, significante é também o facto de Mozos dirigir toda a nossa atenção para 'falsas' naturezas-mortas: os locais em ruínas.

Construído unicamente com imagens dos locais abandonados (edifícios, hotéis, pedreiras, fábricas, sanatórios, teatros, estações de comboios) consegue, ainda assim, criar uma narrativa de um Portugal no pretérito e de hábitos irremediavelmente antiquados. Mas, este abandono não tem aqui indícios de saudade por um passado que não retornará mas antes dá a compreender a simples e esmagadora passagem das coisas. Através dos diversos esqueletos ou dos diferentes estados de danificação compreendemos que a sua impossível recuperação física se deve, acima de tudo, à impotência em controlarmos a direcção do tempo. A transitoriedade nos espaços vividos é exposta em conjunto com uma voz off que dá conta de um tempo que foi, de vivências que preenchem o vazio dos lugares.

Sem procurar razões para o abandono ou deslocação das vivências e dos interesses mas alicerçado unicamente no sem-sentido que aqueles lugares agora têm enquanto vestígios de locais habitados, Mozos põe em marcha o grande poder do cinema – dar vida ao que já morreu. O filme começa no cemitério do Prado do Repouso, no Porto, e parece que dele não chegamos a sair.


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10 Comentários:

Blogger joão amaro correia disse...

tudo muito bem, mas algo me deixa perplexo, no filme. e confesso que essa perplexidade assumiu contornos mais tangíveis nos planos dos bairros dos pescadores, na trafaria, acho, e naqueles bairros disformes ou informais ou outrora ilegais da fonte da telha. a saber: não é de ruína que falamos, o título é enganador, não é dessa experiência crítica do tempo a tratar a matéria, é a memória?, provavelmente. e aqui a memória é a de um portugal que não existe, claro, mas, regresso a essas duas sequências particularmente, um portugal ainda contemporâneo, que alguém, no caso o realizador, não acha que deva ter espaço para existir.

de resto, imagens belíssimas, evidentemente. e talvez, se se quisesse ter aguçado um pouco mais a dor, ter-se esticado ao limite o tempo de cada plano?

j

26/4/10 13:17  
Blogger Susana Viegas disse...

é uma boa ideia, não sei se o Mozos queria criticar de algum modo negativamente esse tipo de ocupação - mas esses bairros de pescadores na fonte da telha mostram que as ruínas não são apenas os sítios abandonados mas as actividades, os hábitos ou projectos que deixaram de ser actuais. aqueles bairros não terão nunca ruas ou avenidas como uma cidade tem. mesmo que não estejam abandonados, as ruínas são um processo lento já engrenado.

26/4/10 18:12  
Blogger joão amaro correia disse...

justamente. mas a questão que coloco é: 'as ruínas não são apenas os sítios abandonados mas as actividades, os hábitos ou projectos que deixaram de ser actuais' à luz de quê e de quem?
eu terei uma resposta e, concedo, demasiado cínica, que por pudor aqui a omitirei.
até porque tocas num ponto sensível: 'aqueles bairros não terão nunca ruas ou avenidas como uma cidade tem'. quem nos diz que aquela gente, aqueles indivíduos, aquela comunidade, deseja viver segundo um modelo 'urbano' que a realidade portuguesa conhece?
(e esta é uma crítica extensível aos programas polis e sucedâneos que são fundamentados a partir de um modelo urbano aos quais porei as minhas dúvidas quanto ao seu reconhecimento pelas populações/comunidades).

j

p.s. se me permitires farei copy/paste deste diálogo para o meu blog.

27/4/10 01:14  
Blogger Susana Viegas disse...

eu não queria entrar por aí apesar de o ter pensado - não creio que o modelo urbano e organizado deva imperar tanto mais que eu vejo muita criatividade vivencial por exemplo na escolha dos materiais, nos azulejos, nas conchas da chamada arquitectura popular. há de facto um grande interesse nesses espaços (já agora, pensemos na passagem nos filmes do Pedro Costa, das Fontaínhas para um novo bairro social..)questões políticas? ou culturais?

27/4/10 13:40  
Blogger Susana Viegas disse...

(e, claro que permito.)

27/4/10 13:41  
Blogger joão amaro correia disse...

claro que essas partes que escapam à 'normalização' - e talvez o termo mais apropriado seja racionalização - urbana são ricas. quanto mais não seja pela diversidade e pela invenção e subversão com que se excluem ao gosto dominante que é traduzido em modelos mais ou menos assépticos, mais ou menos indiferenciados, de «cidade».
e refiro o trabalho antigo do graça dias à volta da «casa do emigrante».
(curiosamente já se trabalha no fenómeno da 'casa do emigrante' que já é ruína: as primeiras gerações ou desapareceram ou não mais regressaram e as terceiras gerações já não estabelecem relação com a origem da família. tive nota disso há poucos dias a propósito de um documentário que penso será brevemente exibido.)

27/4/10 14:22  
Blogger Susana Viegas disse...

qual é o documentário?

27/4/10 14:36  
Blogger joão amaro correia disse...

não sei o nome. sei que foi seleccionado para o próximo festival de cinema documentário, no ccb. quando souber darei novas.

j

27/4/10 14:37  
Blogger Susana Viegas disse...

João,
ontem tive a sorte de falar com o Mozos sobre essas imagens em concreto e a ideia dele não era mostrar que esses bairros não deveriam existir mas que as pessoas que lá vivem são tratadas como ocupantes ilegais etc, ou seja, o abandono não é apenas de espaços mas também de pessoas. (por exemplo, o bairro do Alvito está também habitado.) abraço

28/4/10 10:55  
Blogger joão amaro correia disse...

talvez, talvez, mas não foi essa a percepção que tive ao ver o filme. porque nada distinguia esses planos dos outros, das tais ruínas. o ritmo era o mesmo, a cadência a mesma, o 'afastamento' o mesmo.

j

28/4/10 10:58  

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