5.08.2006

Fonte da Bica

O geólogo A.M. Galopim de Carvalho, director do Museu Nacional de História Natural e autor de inúmeros livros, descreve-nos a formação de rochas salinas ou evaporíticas como as que fomentaram a fundação do complexo da Fonte de Bica. Pensa-se que as rochas salinas presentes nessa zona foram formadas pela precipitação de sais alcalinos provenientes da evaporação das águas salgadas de um ambiente lagunar há cerca de 200 milhões de anos. Algo semelhante ao que acontece actualmente no Kara-Bogaz-Gol [kbg], no Mar Cáspio.

imagens do Earth Observatory e da Earthshots
O kbg é uma lagoa pouco profunda que está ligada ao Mar Cáspio por
um estreito canal. As elevadas temperaturas características do
clima local transformam a lagoa num dos sítios mais salgados do planeta.

O curso de um fluxo de águas subterrâneas alimentado pela infiltração da água das chuvas dissolvem os sais de sal-gema (um evaporito essencialmente constituído por halite ou NaCl e geralmente associado a outras impurezas como argila, óxidos de ferro e matéria orgânica) e transportam-nos, dissolvidos em solução, ao longo da complexa rede de vazios do maciço calcário da Serra d’Aire e Candeeiros e que é continuamente alargada pela erosão química e mecânica das águas ricas em dióxido de carbono. A superfície destes territórios é caracterizada pela fraca e pouco desenvolvida rede hidrográfica mas contrapõem-se à intricada rede subterrânea.
Na Fonte da Bica, a 3Km de Rio Maior, foi, em tempos, aberto um poço de água salgada a partir do qual retiram a água (inicialmente por picotas, agora bombeada por um motor) e a distribuem pelas regueiras aos esgoteiros, e destes para os 450 tanques de evaporização denominados de talhos. As infra-estruturas ocupam pouco mais de 2ha de um vale e produzem o sal-gema da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Sal de Rio Maior. O trabalho, ainda sazonal, traz todos os Verões alguns agricultores da zona.
A extracção do sal-gema é, no entanto, apenas o primeiro passo de inúmeras indústrias químicas que produzem produtos como o cloro, sódio, ácido clorídrico, hipoclorito de sódio, soda cáustica, carbonato de sódio, sulfato de sódio que, por sua vez, são a base de outras indústrias como a do vidro, de cerâmica, farmacêutica, de detergentes, entre outras.

O sal-gema surge disponível ao homem depois de longos processos de transformação do território, da conjugação de vários factores que, embora indiferentes ao homem, produzem um recurso valorizado e vector de transformação e construção de paisagens, de economias e de comunidades. A atribuição de um valor justificou a transformação da paisagem, a impermeabilização de 2ha de um vale e a constituição de uma micro-cultura muito própria, a dos marinheiros (o nome atribuído aqui aos salineiros).
Mas também o próprio valor sofre flutuações. Antigamente uma mais valia para a economia da zona ribatejana, hoje o ex-libris do turismo no Concelho de Rio Maior. Desta vez o recurso não é só o sal-gema mas também o turismo exploratório da paisagem construída nos últimos séculos para a recolha do sal-gema. Recursos pouco rentáveis actualmente mas que justificam para já a manutenção da exploração salineira. Mais tarde avançarão para o turismo agrícola onde os próprios turistas pagarão para trabalhar nas salinas. Talvez um estrangeiro comprará todo complexo com a promessa de manter a produção de sal-gema e exploração do recurso do turismo. Mesmo assim, pouco a pouco, o recurso será desvalorizado ou esgotado nas suas frentes. Restará o património arqueológico que levará à constituição de um parque cultural no qual serão apresentados e justificados os vectores de transformação da paisagem e daquilo que em tempos foi um valor para comunidades. A falta de financiamento acabará por corroer as infra-estruturas mais modernas e com o tempo, se a profundidade das modificações causadas pela acção do homem no funcionamento dos sistemas o permitir, os próprios sistemas paisagísticos encontrarão caminho e integrarão e dissolverão o complexo salino.
A paisagem e a sua transformação são reguladas em larga escala pelo homem. O homem regendo-se por um conjunto de valores mutáveis identifica quais os recursos que mais lhe interessam num dado momento e altera a paisagem respeitando aquilo que sente como absolutamente necessário. As marcas e a persistência desses sinais deixados na paisagem são proporcionais ao investimento exercido pelo homem e pela capacidade desse mesmo sinal poder ser readaptado às novas contingências. Até que esse sinal deixa totalmente de fazer sentido à luz de novos valores vigentes e entra na penumbra do esquecimento.


Algumas referências:
Galopim de Carvalho, A.M., 1996. Geologia. Morfogénese e Sedimentogénese, Universidade Aberta, Lisboa
Galopim de Carvalho, A.M., 2003. Geologia Sedimentar – I Volume - Sedimentogénese, Âncora Editora, 1ª Edição, Lisboa

Região de Rio Maior
Triplov
Earth Observatory
Earthshots: Satellite Images of Environmental Changes

4 Comentários:

Anonymous diogo disse...

Muito interessante a explanação deste sistema bem complexo.

As fotografias foram tiradas com uma Holga?

10/5/06 13:10  
Blogger pedro disse...

Sim, já tenho a Holga há algum tempo e tem acompanhado os meus passeios desde então. Utilizo-a mais por divertimento e curiosidade para saber como as fotografias ficam depois de reveladas. Estas foram imagens digitalizadas das provas de contacto.

11/5/06 15:36  
Anonymous Maria disse...

Eu tambem tenho uma Holga mas não consigo perceber como é que eu consigo fazer com que as fotos fiquem assim. Como é que eu digitalizo as provas de contacto? Qualquer laboratório de fotografia o faz?

Obrigado. E peço desculpa pela ignorância.

24/8/07 16:04  
Blogger pedro disse...

Olá Maria. A digitalização das provas de contacto fui eu que as fiz num scanner normal. A Holga tem uma característica muito própria que é permitir a entrada de luz no interior. daí a necessidade de colocar uma fita-cola preta nas possíveis zonas de entrada de luz. se optarmos por não pôr fita-cola num e noutro ponto a entrada de luz irá queimar o negativo dando uma coloração amarelada e avermelhada.
mais info aqui:
http://shop.lomography.com/holga/
http://en.wikipedia.org/wiki/Holga

26/8/07 22:12  

Enviar um comentário

<< voltar